sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

BENEDETTA BIANCHI PORRO, o milagre de Deus


Benedetta Bianchi Porro nasce a 8 de Agosto de 1936, na Itália. É a segunda de 7 irmãos, profundamente apaixonada pela vida; aos 8 anos escreve no seu diário: “Como é maravilhoso viver!”
Mas bem cedo, a sua existência está sujeita às doenças. Logo ao nascer, teve uma hemorragia inesperada. Alguns meses depois, contrai poliemite que lhe deixa uma perna mais curta, o que a obriga a coxear. Esta diminuição será para ela fonte de muitas humilhações perante os outros.
Aos 12 traz um corpete apertado para corrigir uma escoliose provocada pela sua claudicação. No ano seguinte, sente uma dor obscura que a invade. Dar-se-á conta da sua situação quando começa a ficar surda.
Como de costume reage com coragem: “Talvez um dia, não perceberei mais o que os outros me dirão, mas ouvirei sempre a voz da minha alma: é o verdadeiro caminho que tenho de seguir”.
Acreditar e sonhar
A vida da sua família já tinha sido bem provada: a guerra obrigou ao êxodo de cidade em cidade; a pobreza consequente com a necessidade de cuidar de sete filhos. Corajosamente decide que as suas doenças não podem pesar mais sobre o lar. Esforça-se, pois, e sonha como todas as meninas: “Quero ser como os outros, e talvez mais. Quereria ser alguém importante… Quantos sonhos, quantas lágrimas, quanta nostalgia melancólica…” Pobre Benedetta!
A coragem tem os seus limites. Entra numa fase de depressão. “A ilusão faz-me tremer mais do que o desespero. Agito-me e luto em vão, porque não quero encontrar dor onde ainda espero achar paz: não tenho confiança suficiente em mim e nos outros… Os dias são tristes e monótonos, sem novidade, sem entusiasmo, com um pouco de resignação e muita infelicidade… parece-me que vou afundando lentamente, lentamente…” “Tenho medo desta minha indefinição, destas trevas: sinto-me tão falsa, tão inútil, tão vazia! Canso-me sempre de tudo… Desejo tanto a verdade, desejo apenas isso, mas a verdade é desconhecida de todos. Terei de recomeçar a ser nada entre tantos…”
Então aplica-se. É excelente na escola apesar das suas limitações. A fé tornou-se a sua força.
Em Setembro de 1953, apesar da sua surdez e de se apoiar numa bengala (com 17 anos!), Benedetta consegue entrar para a universidade de Milão. Aí, orienta-se para a medicina: quer ser missionária. Porém, aquilo que parece uma vitória é, pelo contrário, o princípio de muitas humilhações.
A cruz como caminho
Através dos seus estudos, segue a evolução do seu mal. Consegue diagnosticar-se antes dos próprios médicos. Tem de ser submetida a várias operações cirúrgicas. A primeira, na cabeça, corta o nervo facial esquerdo que lhe deixa metade do rosto paralisado: Benedetta não pode mais rir ou chorar sem esforço doloroso.
Em Agosto de 1959 (23 anos), uma operação à medula origina a paralisia das pernas: Benedetta desloca-se com muletas. Depois é uma gengivite que lhe faz cair os dentes. Perde o olfacto, o tacto, o paladar e sua voz enfraquece ao ponto de se tornar quase inaudível.
Mesmo assim, Benedetta prossegue os estudos até ao 5º ano de medicina.
No início do ano de 1963, começa a perder a vista. É operada. Quando acorda está totalmente cega. Tem de renunciar ao pouco que lhe restava e constituía a sua felicidade no meio das provas: a leitura, a música (tocava piano), a beleza da natureza à qual era tão sensível, os estudos quando estava a concluí-los. TUDO!
Está praticamente cortada do mundo exterior. Só lhe resta um fio de voz e a sensibilidade da mão direita com a qual aprendeu o alfabeto dos surdos-mudos

A luz de Deus, o maior milagre
Por ocasião de uma peregrinação a Lourdes é objecto de um milagre mais inesperado, afirma ela, do que a graça de uma cura: “A convicção que tenho da riqueza do meu estado só é cumulado pelo desejo que tenho em conservá-lo.” Parece masoquismo, mas não é: Antes a certeza - humanamente incompreensível e até escandalosa - de que a cruz é fonte de vida e alegria.
Quanto mais Benedetta mergulha na noite, mais ela é elevada na luz de Deus. Ela experimenta na cruz a união a Deus, através da contemplação, com uma alegria inefável e purificações radicais: “Por vezes, sofro como um bicho; quereria que parasse. Outras vezes, peço que sofra mais pois possuo a luz em mim, e somente posso balbuciar, tendo tantas coisas doces a dizer a Jesus. Digo-me a mim mesma, e com pavor, o quanto deve ser duro o ter medo de perder Deus. Isto aconteceu-me, somente o temor…”
Mas que alegria quando reencontra o sentimento da presença de Deus e a certeza do seu amor! “Eu senti-O, reencontrei-O, que alívio! Com Ele, sinto-me capaz de ir mais longe ainda, até ao fim do mundo se assim Ele o quiser… Não desejo nem pausa nem repouso: reencontrei o Senhor, escutei a sua voz; foi um colóquio tão doce, tão suave!”
Dela, diz a sua mãe: “Ela vive de oração, canta, dita cartas para os amigos, a sua existência é mais angélica do que humana. Cada noite, ela dá graças a Deus pelos males que a afligem, dizendo «Deus toma para dar». Ela é feliz de poder morrer sem ter cometido um só pecado mortal. E, mesmo neste estado, ela diz que ama a vida, o sol, as flores, a chuva. É de uma obediência e de uma humildade desconcertantes, que edificam…”

A sua vocação: Ser Luz para os outros
Benedetta oferece a sua vida triturada em favor dos outros, sem um olhar sobre si própria: “O meu dever consiste em amar o sofrimento daqueles que vêm à minha cabeceira e me concedem ou pedem o socorro de uma oração”. É que vêm visitá-la cada vez mais e, através dessas visitas, vai aprofundando a sua vocação: sendo cega, é ela que traz luz aos outros e, em luta constante com a miséria do seu corpo, ela quer ser despenseira de paz, ser fonte de alegria. As suas cartas transbordam de reconhecimento, de ternura e confiança. Assume-se como instrumento de amor, paz e de alegria junto dos irmãos.

Com o passar dos anos, o estado de Benedetta degrada-se inexoravelmente. Consciente dessa realidade, nem por isso esmorece no seu apostolado. Um bispo que a conheceu dirá dela: “Benedetta é o milagre pelo qual Deus quis manifestar-se ao nosso tempo”.
Eis um trecho do seu testamento espiritual: “Pai que nos amais mais do que nós próprios, sabes quanto e como erramos, ó Luz divina. Pai que és misericórdia, sabes tirar o bem do mal, que nós cometemos! O teu amor torna fecunda toda a flor. Ensina-nos a encontrar-Te nos outros, pois o nosso próximo é o Cristo que se fez pequeno para nos ajudar a encontrá-l’O. Os dias, por vezes, são iguais; por vezes, desejaria que acabasse a minha dor, e digo-Te sem vergonha: «Tenho medo, mas ajudar-me-ás, pois sei que existes». Um dia, compreenderemos o porquê de todas as coisas e, maravilhados, nos Te cantaremos, mas agora, Pai, abandonamo-nos ao teu amor fiel, como oração no caminho.”

Benedetta morre na paz e na alegria, o 23 de Janeiro de 1964, com 28 anos.
A causa de beatificação foi aberta em 1975, tendo sido declarada venerável em 1993.

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