quarta-feira, 15 de outubro de 2008

S. TERESA DE JESUS, mística apaixonada


Teresa Sanchez Cepeda Davila y Ahumada nasceu em Ávila, Castela, em 28 de Março de 1515. Após a morte da sua mãe, quando tinha 14 anos, durante algum tempo, permaneceu em companhia de seu pai e de outros parentes. De família nobre, bela e inteligente, Teresa decidiu optar pela vida religiosa, vendo nesta uma resposta ao desejo de escolher um caminho seguro. Foi difícil convencer o seu pai mas, por fim, em 1535, entra no Convento Carmelita de Ávila, que então contava 140 freiras. Tinha Teresa 20 anos.
No ano seguinte à sua profissão religiosa ela ficou gravemente doente. Passou por tratamentos muito precários que, embora a restabelecessem parcialmente, fragilizaram para sempre a sua saúde.
No convento
Entretanto, Teresa percebendo os seus defeitos e o ambiente superficial e pouco exigente vivido no convento, lutou contra as suas contradições internas, contra as mentiras e hipocrisias de uma vida espiritual vazia. Foi uma luta longa mas pela qual encontrou o seu maior tesouro: Deus.
Neste período, Deus começou a visitá-la em visões, manifestações nas quais os sentidos exteriores não são afectados, pois as coisas vistas e ouvidas são impressas directamente na mente. Nessas conversas, Ele deu a Teresa força, corrigiu a sua falta de fé e consolou-a nas tribulações. Incapaz de conciliar essas graças com suas imperfeições, que ela encarava como faltas graves, recorreu aos melhores confessores da época. Muitos não entenderam que ela exagerava no peso de seus pecados, e acreditavam que essas manifestações eram fruto do demónio. Quanto mais empenho ela demonstrava em resistir aos pecados, mais fortemente Deus trabalhava em sua alma. Toda a cidade de Ávila tomou conhecimentos das suas visões. Felizmente, S. Francisco Bórgia e S. Pedro de Alcântara, assim como outros padres foram capazes de discernir o trabalho de Deus e guiaram-na em um caminho seguro.
Santa Teresa ocupa um lugar especial dentro da mística cristã; é considerada um dos grandes mestres espirituais que a história da Igreja já conheceu. O "Livro da Vida", “Caminho de perfeição” e "Castelo Interior" formam uma das mais extraordinárias biografias espirituais, comparáveis apenas à "Confissões" de Santo Agostinho.
A reforma do Carmelo
Depois de muitas dificuldades e oposições, em 24 de Agosto de 1562, ela funda o convento das Carmelitas Descalças da Regra Primitiva de São José em Ávila e, seis meses mais tarde, consegue permissão para se mudar para lá. Mais tarde, ela recebe a aprovação do convento como ainda garantiu a fundação de outros conventos de frades e de freiras.
Em toda parte ela encontrava almas generosas para abraçar as austeridades da regra primitiva do Carmelo. Contou com a preciosa ajuda de S. João da Cruz, que promoveu a mesma reforma entre os frades. Teresa e João da Cruz teriam ainda se sofrer muitas incompreensões e enfrentar muitos obstáculos.
As dificuldades, finalmente, passaram e a província das Carmelitas Descalças, com o apoio de Felipe II, foi aprovada canonicamente. Santa Teresa, apesar de idosa e doente, fez mais algumas fundações. Numa das suas viagens, chegou a Alba de Torres, sofrendo intensamente. Ficou acamada e faleceu em 4 de Outubro de 1542 (por causa das reformas no calendário, considera-se a data de sua morte 15 de Outubro).
Foi canonizada em 1622 por Gregório XV. Em 27 de Setembro de 1970, foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II, pela profundidade mística da sua espiritualidade.

domingo, 12 de outubro de 2008

EDITH CAVELL, viver e morrer sem ódio nem ressentimento

Filha de um pastor anglicano, Edith Louisa Cavell nasceu no dia 4 de Dezembro de 1865 na Inglaterra. Formou-se em enfermagem em Londres. Em 1907 é nomeada como responsável do Berkendael Institute em Bruxelas. Aí, dois anos mais tarde, funda uma escola de enfermagem. Entretanto, em 1914, rebenta a Primeira Grande Guerra. Sendo a Bélgica também palco de violentos combates, Edith rapidamente corresponde às necessidades tratando dos soldados feridos, tanto aliados como alemãs. De tal forma se empenha no trato destes homens que até na Alemanha lhe reconhecem a dedicação e competência. Dela, foi escrito, tratar-se de um “anjo da caridade”.
Mas Edith é profundamente patriota. Depois de restabelecidos, Edith ajuda cerca de duas centenas de soldados aliados a passar a fronteira para regressarem as seus países ou à frente de combate.
Porém, provavelmente denunciada, Edith é presa e levada a tribunal marcial pelos alemães. Pela sua formação cristã, Edith tem horror à mentira. Por isso, não nega nenhum facto de que é acusada. Pela Europa, o seu caso é seguido com atenção. Todos esperam que, por ser mulher, não seja condenada à morte. Contudo, os alemães querem fazer deste julgamento um exemplo dissuasor. De nada valerá à defesa de Edith. É sentenciada a ser fuzilada.
Na véspera da sua execução, confessará ao capelão que a visita para lhe dar a comunhão: “Perante Deus e a eternidade, compreendo que o patriotismo não basta. Não devo ter em mim nem ódio nem ressentimento para com ninguém”. Reconhece ser acusada por ter abusado do patriotismo e da caridade. Sente-se, por isso, feliz de morrer pelo seu país e pela sua fé.

É fuzilada na madrugada do dia 12 de Outubro de 1915. O seu corpo foi, posteriormente, sepultado próximo da catedral de Norwich. Tal foi o impacto da sua acção e da sua morte que existe um monumento em sua honra em Londres e deram o seu nome a um monte no Canada.

NA MESA DO MUNDO...

cf. Mt 22, 1-10

Senhor do universo, na mesa do mundo,
as vossas criaturas têm Fome de Pão que permita viver,
sem angústias, o dia de amanhã;
Fome de Amor
que permita viver a felicidade;
Fome de Alegria
que permita viver em plenitude;
Fome de Paz
que permita viver de mãos dadas, entre irmãos.
Fome de Justiça
que permita viver em igualdade de direitos e deveres;
Fome de Felicidade
que permita viver sem lágrimas, sem luto, sem morte;
Fome de um Ideal nobre
que permita viver acima da mediocridade deste mundo;
Fome de Infinito
que nos permita viver com os pés na terra,
mas com o coração nas alturas;
Fome de Vós,
Senhor do universo e sumo bem,
para cada pessoa que vem a este mundo.

Pe. José Martins Vaz, Cssp
(adaptado)

sábado, 11 de outubro de 2008

VIVER O PRESENTE


Senhor, dia após dia,
instante após instante,
eu redijo o romance da minha vida,
escrevo-o para a eternidade.

Concede-me que eu viva
o mais possível
em plenitude cada momento.

Cada instante que me dês
nunca mais me será dado novamente.
Não quero que isso me angustie
mas que me dê o desejo
de não desperdiçar a minha vida.

Cada momento
é uma gota de união contigo.
Eu não vivo o passado nem o futuro
mas vivo este instante.

E se eu estou unido a Ti
tenho Tudo.

André Séve

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

S. DANIEL COMBONI, uma paixão chamada África


Neste mês missionário, nada melhor que recordar alguns intérpretes da missão: Hoje comemoramos S. Daniel Comboni, o grande missionário dó continente africano.

DANIEL COMBONI nasce em Limone sul Garda (Itália) no seio de uma humilde família de agricultores, no dia 15 de Março de 1831.
Na escola a sua professora percebeu que o menino era diferente: as respostas que dava revelavam uma inteligência incomum e uma curiosidade viva. Aos dez anos de idade, faz a escolha da sua vida: ser padre. Deixa a família para estudar em Verona. Aos quinze anos, ao ler a história dos mártires do Japão, entusiasmou-se e decidiu ser missionário. É ordenado sacerdote em 1854, partindo depois para o continente africano.
Sem perda de tempo, preparou-se para a sua tarefa na África. Estudou inglês, francês, árabe. Dedicou-se de corpo e alma aos africanos lutando com tudo o que podia contra a encravadura. Confiante em que os africanos se tornariam obreiros da própria evangelização, dá vida a um projecto que tem como finalidade Salvar a África com a África. Da missão de Santa Cruz escreve aos seus pais: «Teremos que sofrer, suar, morrer, mas o pensar que se sofre e morre por amor de Jesus Cristo e da salvação das almas mais abandonadas do mundo é demasiado consolador para nos fazer desistir da grande empresa».
Fiel ao lema "África ou morte", apesar das dificuldades prossegue no seu projecto. Funda, em 1867, o Instituto dos Missionários Combonianos e, em 1872, o das Missionárias Combonianas.
Voz profética, anuncia à Igreja inteira, particularmente na Europa, que chegou a hora da salvação dos povos da África. Por isso, e apesar de ser um simples sacerdote, apresenta-se no Concílio Vaticano I para pedir aos bispos que cada Igreja local se comprometa na conversão da África (Petição, 1870).
Em 1877 é consagrado bispo da África central.
Destroçado pelas canseiras, febres e pelos sofrimentos, morre em Cartum, Sudão, na noite de 10 de Outubro de 1881. Mas é em paz que se despede: «Eu morro, mas a minha obra não morrerá».
Fruto do carisma comboniano são também as Missionárias Seculares Combonianas (1969) e os Leigos Missionários Combonianos (1993). Estes missionários estão hoje nos cinco continentes.João Paulo II proclama-o santo a 5 de Outubro de 2003.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

AO SENHOR DA SEDE…

cf. Jo 4, 4-42

Oiço-Te a dizer-me que tens sede.
Tu, a fonte da água viva, tens sede…
Paradoxo divino do Teu amor pelas pessoas,
da Tua ternura por mim.
Tens sede da minha vida, do meu amor,
da minha fidelidade,
da minha entrega generosa e total,
da dádiva do meu ser.
Eu ando a oferecer-Te insignificâncias,
piedosas orações,
este ou aquele trabalho…
Mas Tu segredas-me que queres mais,
que desejas tudo.
É por isso que tens sede de mim,
do dom total de mim próprio.
Dá-me a capacidade de me dar,
de te matar a sede,
oferecendo-me totalmente, sem reservas,
na disponibilidade total.
Dá-me também, Senhor,
a graça de ter sede de Ti
.
Que nada nem ninguém
chegue para me saciar.
Só Tu, o Senhor, o Amigo,
o Deus feito Homem.
Dá-me uma sede imensa de Ti,
da Tua presença, da Tua intimidade.
Meu Deus, Senhor da sede,
quero saciar-Te com o meu amor.

.

domingo, 5 de outubro de 2008

DAR FRUTO


cf. Mt 21,33-43
O Senhor está permanentemente a comparar a alma humana com uma vinha: «O meu amigo possuía uma vinha numa colina fértil» (Is 5, 1), «Plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe» (Mt, 21, 33). É, evidentemente, à alma humana que Jesus chama a Sua vinha, foi a ela que cercou, como se fosse uma sebe, com a segurança que proporcionam os Seus mandamentos e a protecção dos Seus anjos, porque «o anjo do Senhor assenta os seus arraiais em redor dos que O temem» (Sl 33, 8). Em seguida, ergueu em nosso redor uma paliçada, estabelecendo na Igreja «primeiro, apóstolos, segundo, profetas, terceiro, doutores» (1 Cor 12, 28). Por outro lado, através dos exemplos dos homens santos de outrora, eleva-nos os pensamentos, não os deixando cair por terra, aonde mereciam ser pisados. Deseja que os abraços da caridade, quais sarmentos de uma vinha, nos liguem ao nosso próximo e nos levem a repousar Nele. Assim, mantendo permanentemente o impulso em direcção aos céus, elevar-nos-emos como vinhas trepadeiras, até aos mais altos cumes.

O Senhor pede-nos também que consintamos em ser podados. Ora, uma alma é podada quando afasta para longe de si os cuidados do mundo, que são um fardo para o nosso coração. Assim, aquele que afasta de si mesmo o amor carnal e a ligação às riquezas, ou que tem por detestável e desprezível a paixão pela miserável vanglória, foi, por assim dizer, podado, e voltou a respirar, liberto do fardo inútil das preocupações deste mundo.

Mas – e mantendo ainda a linha da parábola – não podemos produzir apenas lenha, ou seja, viver com ostentação, ou procurar os louvores dos de fora. Temos de dar fruto, reservando as nossas obras para as mostrarmos ao verdadeiro agricultor (Jo 15, 1).

São Basílio (c. 330-379),
monge e bispo de Cesareia,
na Capadócia, doutor da Igreja


sábado, 4 de outubro de 2008

S. FRANCISCO, o Irmão de Assis


Francisco nasceu em 1182, em Assis, Itália. Era filho de um mercador importador de tecidos de luxo que, no regresso de uma viagem lucrativa em França, mudou o nome do recém-nascido de João para Francisco, o “francês”. Embora estivesse destinado a tornar-se, também ele, um rico comerciante, sonhava com a glória dos cavaleiros. Decidiu então participar na guerra, ao serviço do Papa. No entanto, durante uma noite, longe de casa, teve uma visão: o Senhor disse-lhe para voltar para trás.
Suportando a troça por parte das pessoas que o conheciam, convencidos que fosse um covarde, da guerra Francisco converteu-se à paz, tendo recebido outra mensagem divina. De facto, teve uma experiência mística na qual ouviu o Senhor pedir-lhe que reconstruísse a sua Igreja. Isso aconteceu diante de uma cruz, nas ruínas de uma pequena igreja, S. Damião, situada nos arredores de Assis. Francisco começou por restaurar o edifício no qual se recolhia frequentemente para rezar. Porém, aquilo que Deus realmente pretendia era o renascimento da vida de fé da Igreja.

Instrumento de Paz
Francisco decidiu pregar sobre a humildade, a pobreza, a simplicidade e a oração por toda a região. O Irmão de Assis, como começou a ser conhecido, revelava grande respeito e sensibilidade ara com toda a gente e pela natureza. De tal forma o seu testemunho era autêntico que muitos jovens de Assis e arredores optaram por seguir a vida de Francisco. Enquanto outros partiam armados para novas cruzadas, Francisco dirigiu-se ao Grande Sultão apresentando-se como peregrino e mensageiro da paz. Ele quis tornar-se manifestação viva da misericórdia divina aplicando em pleno a palavra do Evangelho. A sua vida errante e cheia de privações, ideal para o seu espírito, pôs no entanto à dura prova o seu corpo.
Após a sua morte, em 1226, a Ordem dos Frades Menores fundada por ele perpetuou o espírito da sua doutrina, difundindo-a por todos os cantos do mundo. Hoje, o franciscanismo manifesta-se através de diversas ordens e famílias religiosas: Frades Menores, Capuchinhos e Conventuais, Clarissas… Existe também a Ordem Secular, constituída por leigos que vivem segundo o espírito de S. Francisco.

Rezar com Francisco
Senhor, faz de mim um instrumento da Tua Paz.
Onde houver ódio, que eu leve o Amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a União.
Onde houver dúvida, que eu leve a .
Onde houver desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a Luz.

Senhor, faz que eu procure mais:
consolar que ser consolado,
compreender do que ser compreendido,
amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se ressuscita para a vida eterna!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

JACQUES FESH, o "bom ladrão" do século XX


25 de Fevereiro de 1954, 18 horas: um cambista é assaltado e ferido à martelada no seu local de trabalho. O agressor escapa-se mas é perseguido pelos transeuntes. Em pânico, o ladrão dispara ao acaso sobre os seus perseguidores. Atinge mortalmente um polícia. O agressor é detido, encarcerado e condenado à morte, pena então em vigor em França.
Seu nome: Jacques Fesh.
Tem apenas 24 anos. É filho de boa família mas cujo ambiente não é bom: os pais discutem constantemente, o pai anda sempre em viagens e demite-se da educação dos seus filhos. Na escola e no trabalho Jacques não consegue assumir nenhum compromisso duradouro. Uma tentativa de empresa acaba em falência. Nada do que empreende tem fim. Casa com Pierrette de quem tem uma filha, Veronique. Porém, isso não é suficiente. Começa, então, a sonhar com uma louca ilusão: partir para longe, numa viagem marítima que o leve ao outro lado do mundo. Para isso, é preciso um barco, mas sem dinheiro, só lhe resta roubar. E acontece a desgraça.

Na prisão
Jacques apercebe-se do erro cometido. “Quanto mal fui capaz de fazer à minha volta com o meu egoísmo e a minha inconsciência”. Arrepende-se, mas isso não basta. Deus vai transformar esse rebelde imaturo servindo-se de três instrumentos: o capelão que vence a sua resistência inicial, um frade que passa a escrever-lhe e o advogado cristão que aceita defendê-lo. Ao longo dos meses, Jacques transforma-se radicalmente: “Tentava acreditar pela razão, sem rezar ou tão pouco! E, depois… brutalmente, em poucas horas, possuí a fé, uma certeza absoluta. Acreditei e não compreendi mais como fazia para não acreditar… A graça visitou-me, uma grande alegria e, sobretudo, uma grande paz se apoderou de mim… Tenho agora a certeza de começar a viver pela primeira vez.”
“É a primeira vez que choro lágrimas de alegria, pela certeza de que Deus me perdoou e que Cristo vive em mim através do meu sofrimento e do meu amor… Sinto agora uma nova força em mim, uma certeza absoluta: dar-me inteiramente ao Seu Amor. Neste momento, só Ele importa… A sua acção é imperceptível e eficaz: prende-me e eu sou livre, transforma o meu ser e, no entanto, nunca deixei de ser eu…”
Na verdade, torna-se ele próprio. Deus revela-lhe quem é verdadeiramente Jacques Fesh. Descobre-se na luz de Deus. Maior do que julgávamos, mais profundo do que ele mesmo pensava. O encontro com o seu Senhor traz à luz do dia o melhor que tem em si, do que ele é.
Jacques é agora um incansável evangelizador. A sua preocupação constante: que aqueles que ele ama encontrem, como ele, Jesus.

É na leitura da Bíblia e da vida de santos, na oração e na eucaristia que Jacques vai buscar a força porque a luta continua: “O meu olhar mudou, mas os meus hábitos de pensamento e de comportamento ainda não mudaram: Deus deixou-os onde estavam. É preciso lutar, adaptar-me, reconstruir as instalações interiores, e não posso estar em paz senão aceitar esta guerra… Encontrei a paz mas, ao mesmo tempo, a luta… Quanto mais progrido mais me apercebo da minha miséria e do caminho infinito que me resta percorrer. (…) A religião não é conforto, mas será sempre, num certo sentido, uma conversão.”

Sentenciado à morte
Entretanto, começa o julgamento. A justiça, pressionado pelo sindicato dos polícias e a imprensa, quer dar um exemplo: Jacques é condenado a morrer guilhotinado. Embora se sinta vítima de uma sentença viciada desde o início, Jacques aceita a sua sorte com uma impressionante serenidade: “Se sou rejeitado pelos homens, é porque o Senhor quer dar-me o maior dos bens: a glória em Cristo ressuscitado… Sei agora que tudo é graça… O que Jesus quer de mim é o total abandono da minha vontade à Sua, a aceitação positiva do castigo que me fazia rebelar. Justo ou injusto, já não importa, tudo está perdoado, tudo foi abundantemente resgatado, tudo é confiança na Sua Misericórdia… Resta-me pouco tempo para amá-l’O como devia. Não sou eu que amo Jesus, é Jesus que ama através de mim”.
É tal a união que vive com Jesus que afirma: “Em vez de morrer estupidamente, vou poder oferecer a minha morte por aqueles que amo… Sei que, no momento presente, sou o mais privilegiado dos homens, porque o que me vão dar está em desproporção com o que me tiram, e, mesmo que pudesse, não trocaria a minha sorte pela de um rei do petróleo…”
Sente, igualmente, a força da presença de Maria e, especialmente, de Santa Teresa do Menino Jesus. Curiosamente, Jacques será executado na noite de 30 de Setembro para 1 de Outubro de 1957, a mesma noite em que faleceu a santa de Lisieux, cinquenta anos antes.
Nos últimos meses de vida, Jacques escreveu um diário, única herança de um pai para a sua filha Veronique, uma verdadeira preciosidade espiritual. Nas últimas linhas escritas, pode ler-se:
“Daqui cinco horas verei Jesus. Tão bom que é Nosso Senhor!”

S. TERESA do MENINO JESUS, a pequena flor de Jesus


Marie Françoise Thérèse Martin, assim se chamava aquela que mais tarde todos chamariam por “Petite Thérèse” (Teresinha). Nasceu em 1873 e era a filha mais nova e querida de uma família devota. Aos 15 anos entra no Carmelo de Lisieux (norte de França). Passa a chamar-se Teresa do Menino Jesus e da Santa Face.
Teresa passava os seus dias em penitência, meditação e trabalho. Na sua autobiografia, “História de uma alma”, descreve-se como a pequena flor de Jesus no jardim das almas de Deus. Desejou ardentemente unir-se às Carmelitas na Indochina francesa, mas uma tuberculose incurável não permitiu a realização do projecto. Sentia possuir a alma de missionário. Acabou por realizar o seu sonho através do apoio espiritual prestado a dois missionários com quem mantinha correspondência frequente.
Já acamada, mas confiante no amor de Deus, ela prometeu: “Depois da minha morte, deixarei cair uma chuva de rosas. Dedicarei o meu Céu a fazer o bem sobre a terra”.

Na noite de 30 de Setembro de 1897, Teresa entrega-se definitivamente a Deus. tem 24 anos.

Teresa de Lisieux foi proclamada, juntamente com Francisco Xavier, PADROEIRA DAS MISSÕES. Carmelita recolhida na oração, nem por isso deixou de ter alma de missionária. Esta passagem, por ela escrita, revela-o bem:

“Não obstante a minha pequenez, quereria iluminar as almas como os profetas, os doutores, sentia a vocação de ser apóstoloQueria ser missionária, não apenas durante alguns anos mas quereria tê-lo sido desde o princípio do mundo e continuar até à consumação dos séculos. Mas acima de tudo, ó meu amado Salvador, quereria derramar sangue por Vós até à última gota.
Porque durante a oração estes desejos me faziam sofrer um autêntico martírio, abri as epístolas de S. Paulo a fim de encontrar uma resposta. Casualmente fixei-me nos capítulos 12 e 13 da 1ª epístola aos Coríntios; e li no primeiro que nem todos podem ser ao mesmo tempo apóstolos, profetas, doutores, etc…, que a Igreja é formada por membros diferentes e que os olhos não podem ao mesmo tempo ser as mãos. A resposta era clara, mas não satisfazia completamente os meus desejos e não me trazia a paz.

Continuei a ler e encontrei esta frase que me confortou profundamente: procurai com ardor os dons mais perfeitos; eu vou mostrar-vos um caminho mais excelente. E o apóstolo explica como todos os dons mais perfeitos não são nada sem o amor e que a caridade é o caminho mais excelente que nos leva com segurança até Deus. Finalmente tinha encontrado a tranquilidade.
Ao considerar o Corpo Místico da Igreja, não conseguira reconhecer-me em nenhum dos membros descritos por S. Paulo; melhor, queria identificar-me com todos eles. A caridade ofereceu-me a chave da minha vocação. Compreendi que, se a Igreja apresenta um corpo formado por membros diferentes, não lhe falta o mais necessário e mais nobre de todos; compreendi que a Igreja tem coração, um coração ardente de amor; compreendi que só o amor fazia actuar os membros da Igreja e que, se o amor viesse a extinguir-se, nem os apóstolos continuariam a anunciar o Evangelho nem os mártires a derramar o seu sangue; compreendi que o amor encerra em si todas as vocações, que o amor é tudo e que abrange todos os tempos e lugares, numa palavra, que o amor é eterno.

Então, com a maior alegria da minha alma arrebatada, exclamei: Ó Jesus, meu amor! Encontrei finalmente a minha vocação. A minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, e este lugar, ó meu Deus, fostes Vós que mo destes: no coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor; com o amor serei tudo: e assim será realizado o meu sonho.”

OUTUBRO MISSIONÁRIO